quarta-feira, junho 08, 2005

VI

Uma só rosa é todas as demais,
e mais ainda: o vocábulo
insubstituível, acabado e flexível,
enquadrado pelo texto das coisas.

Como sem ela, poder alguma vez exprimir
o que foram as nossas esperanças,
e as deliciosas pausas
no desejo contínuo de partir.

Rainer Maria Rilke

59



A todos disse adeus. Desde a minha infância
fez-me homem, lentamente, a despedida.
Mas persisto em voltar, quero recomeçar,
este regresso nítido liberta-me o olhar.

Só me resta dar-lhe plenitude,
e essa minha alegria que nunca aprendeu
por ter amado as coisas quase parecidas
com essa ausência que nos faz agir.

Rainer Maria Rilke

domingo, maio 29, 2005

Sabes que o ar ficou em êxtase
ao ver-te lamber a tua flutuante infelicidade?

Rainer Maria Rilke




Por toda a parte nos resta ainda uma alegria.
A dor pura entusiasma.
Quem sobe sobre a própria miséria, está mais alto.
E é magnífico saber que só na dor sentimos bem a liberdade da alma.

Hölderlin, Hyperion

sexta-feira, maio 27, 2005



Se amas o negro
Das noites de orvalho
Abominas a manhã.
Se te perdes no vermelho da tarde
Suspiras à mesa
Afastas a taça
Dos Lábios.
Se não amas os prazeres da caça
Não te seduz a fama
Nem o clamor das batalhas.
Se as flores murcham
No teu peito mais depressa
Do que é normal
O sangue invade-te
palpitante o coração.

Karoline von Günderode,
trad. João Barrento

segunda-feira, maio 23, 2005

53

Baralhamos e compomos as palavras
de tantos diversos modos que não sabemos
como tocar numa rosa sem que ela
fique diferente ou murcha de nada.

Se conseguimos suportar
a estranha pretensão de um jogo como este
é porque, por vezes, um Anjo
nos vem ensinar a desacertá-lo um pouco.

Rainer Maria Rilke,
in Frutos e Apontamentos

À volta



Procuro o trânsito de um homem que repousa em ti
Como se desvia um homem do seu coração para seguir viagem
Como deixa ficar tudo e acrescenta à sua herança

Procuro conhecer os símbolos, os marcos miliares
Diurnos, como se lêem
Sinais de fumo e o ângulo dos pombos - e todas as coisas
Que nos chegam da distância

Procuro saber como se fecham os pés dentro dos teus
Percursos
Como se põe descalço um homem que necessita
De atravessar-se
E desejo outra vez desdobrada a tua palavra cheia
De estrelas

Para que as recorte, para que as ponha no silêncio
Vivas
Na minha boca e nas minhas mãos
Em chamas

Daniel Faria

quarta-feira, maio 18, 2005

Subordinada adversativa



But i feel this cake just isn't done

Tori Amos

terça-feira, maio 17, 2005

Agradecimento



Canção Grata

Por tudo o que me deste:
- Inquietação, cuidado,
( Um pouco de ternura ? É certo, mas tão pouco!)
Noites de insónia, pelas ruas, como um louco...
Obrigado, obrigado!

Por aquela tão doce e tão breve ilusão,
(Embora nunca mais, depois que a vi desfeita,
Eu volte a ser quem fui), sem ironia: aceita
A minha gratidão!

Que bem me faz , agora, o mal que me fizeste!
- Mais forte, mais sereno, e livre, e descuidado...
Sem ironia, amor: - Obrigado, obrigado
Por tudo o que me deste!

Carlos Queiroz

domingo, maio 15, 2005

Tentativa ou engano



Nada fornece qualquer garantia a ninguém.
Há muitas maneiras de respirar e deixar de respirar.
Temos os nossos ritmos.
É preciso viver e morrer com eles.

Herberto Helder

sexta-feira, maio 13, 2005

Einmal Haben



Enfim temos

Enfim temos
as duas mãos cheias de luz -
as estrofes da noite, as agitadas
águas batem de novo nas orlas
da margem, no sono cru,
sem olhos, dos animais no canavial
depois do abraço - (...)
lá fora , contra o céu
branco que desce
frio sobre o
monte, a cascata de brilhos,
e cristaliza, gelo,
como caído das estrelas.

Na tua fronte
quero viver o pequeno
tempo, esquecido, deixar
passar silencioso
o meu sangue pelo teu coração.

Johannes Bobrowski


quarta-feira, maio 11, 2005

Oferta



Ofereço-te quaisquer visões que os meus livros possam conter,
qualquer bravura ou humor da minha vida.
Ofereço-te esse núcleo de mim mesmo que guardei fosse como fosse

- o coração central que não lida com palavras

Jorge Luis Borges

segunda-feira, maio 09, 2005

Proposta



em sobressalto.

sexta-feira, maio 06, 2005

Caixa



Tive esta imagem guardada até ser maior o silêncio
- o contorno dos teus pés nus
no chão desta casa.

quinta-feira, maio 05, 2005

Asfixia



Alguém se procura dentro do meu ardor escuro,
e reconhece as noites espantosas do seu próprio silêncio.

Herberto Helder

quarta-feira, maio 04, 2005

Noite que voltas calada



E insistia
tal como entre esta noite e a noite passada não há ruptura de noites,
apenas se transmite entre todas elas ,
simplesmente e com iluminada continuidade,
a mesma nostalgia do estranho simples

Maria Gabriela Llansol

terça-feira, maio 03, 2005

Resposta



Pergunta-me
faz-me perguntas
pergunta-me que sonho tive no texto da noite
pergunta-me se sofro porque tudo abrasas.

Maria Gabriela Llansol

domingo, maio 01, 2005

E depois isto...



Sem nunca ser, mas sempre na orla do Ser
A minha cabeça, como a máscara de Morte, é transportada no Sol
A sombra apontando o dedo à minha face
Movo os lábios para saborear, mexo as mãos para tocar
Mas nunca vou mais além do tocar,
Ainda que o espírito se incline para ver.
Diante da rosa, o ouro, os olhos, uma paisagem admirada,
Os meus sentidos registam o acto de desejar,
Desejar ser rosa, ouro, paisagem ou um outro -
reclamando a plenitude no acto de amar.

Virginia Woolf

sábado, abril 30, 2005

Extintor de Incêndios



Modo de emprego

1 - tirar a cavilha de segurança
2 - pressionar o manípulo
3 - dirigir o jacto à base das chamas

- Não usar em fogos de metais não tóxicos
- Não usar sobre tensão eléctrica superior a 35 kv.

NUNCA MAIS ATEAR FOGO SEM PREAVISO

sexta-feira, abril 29, 2005

Um lugar estranho



Há um quarto escuro
O ventre fechado e aferrolhado
Onde o negativo se torna positivo.
Um outro quarto escuro
O túmulo cego e selado
Onde os positivos se tornam negativos
Não podemos abrir aquele nem escapar a este, que
Tem o nascimento e a morte enrolados nos ossos,
Nada que possamos fazer
Suavizará o pesar autêntico,
Que começamos e acabamos, com gemidos

Virginia Woolf

quarta-feira, abril 27, 2005

QUASE DANÇA